Índice
- Pontos-Chave
- Contexto: Por Que Esta Pesquisa é Importante
- O Estudo ASPREE: Um Olhar Mais Atento
- Principais Achados: O Que o ASPREE Mostrou
- Possíveis Explicações para os Resultados Inesperados
- Lições Aprendidas Até Agora e Próximos Passos
- Resumo de Estudos Randomizados Anteriores
- Limitações e Ressalvas
- Recomendações para Pacientes
- Perguntas Frequentes
- Informações da Fonte
Pontos-Chave
- ASPREE: adultos saudáveis com 70 anos ou mais (ou 65 anos ou mais para minorias) que tomaram 100 mg de aspirina diariamente não tiveram melhor sobrevida livre de incapacidade do que o placebo após 4,7 anos.
- No ASPREE, a aspirina foi associada a um risco 31% maior de morte relacionada ao câncer, mas este foi um desfecho secundário e pode ser devido ao acaso.
- A orientação atual da USPSTF para adultos de 50 a 59 anos com risco de DCV em 10 anos de 10% ou mais permanece inalterada: a aspirina em baixa dose ainda é considerada preventiva.
- Para prevenção secundária após ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral, a aspirina continua recomendada; não a interrompa sem orientação do seu médico.
- As decisões sobre iniciar ou interromper a aspirina para prevenção primária em adultos com mais de 60 anos devem ser individualizadas com um médico, ponderando benefícios e riscos.
Contexto: Por que esta pesquisa é importante
Durante anos, a aspirina foi vista como um possível medicamento milagroso para prevenir doenças crônicas. Em 2016, a U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) emitiu uma recomendação de Grau B para aspirina em baixa dose (81 mg por dia nos Estados Unidos) como tratamento preventivo em adultos de 50 a 59 anos com risco de eventos de doença cardiovascular (DCV) em 10 anos superior a 10%. Essa recomendação baseou-se em fortes evidências de que a aspirina também poderia ajudar a prevenir o câncer colorretal (CCR).
A USPSTF concluiu ainda que, para adultos de 60 a 69 anos, a decisão de iniciar aspirina deveria ser individualizada. No entanto, naquela época, havia evidências insuficientes para fazer qualquer recomendação para adultos com 70 anos ou mais. Essa lacuna de conhecimento levou ao estudo ASPREE (ASPirin in Reducing Events in the Elderly), um grande estudo randomizado e controlado por placebo, projetado especificamente para responder se a aspirina é segura e eficaz em uma população idosa saudável.
Antes do ASPREE, as evidências dos benefícios da aspirina na prevenção do câncer vinham principalmente de estudos com adultos mais jovens. O Women's Health Study (WHS), o maior estudo randomizado de aspirina para prevenção primária, testou aspirina de 100 mg em dias alternados e encontrou uma redução de 20% na incidência de câncer colorretal (razão de riscos [HR] 0,80; intervalo de confiança [IC] de 95%, 0,67–0,97) ao longo de 10 anos de acompanhamento pós-estudo. O estudo CAPP2, que incluiu pessoas com síndrome de Lynch (uma forma hereditária de câncer colorretal), constatou que 600 mg de aspirina por dia reduziram o risco de câncer colorretal em 59% em uma análise por protocolo (HR 0,41; IC de 95%, 0,19–0,86). Análises secundárias de estudos cardiovasculares também mostraram que tomar aspirina por 5 anos ou mais, em doses de 75 mg ou mais, reduziu o risco de câncer colorretal em longo prazo em 24% em comparação com placebo.
O problema: a idade média dos participantes nesses estudos era de 55 anos no WHS, 18 no CAPP2 (conforme relatado neste comentário) e cerca de 60 nas metanálises de estudos cardiovasculares. Menos de 10% dos participantes do WHS e nenhum dos participantes do CAPP2 tinham mais de 65 anos. Isso deixou uma grande pergunta sem resposta: a aspirina funciona da mesma forma em adultos mais velhos?
O estudo ASPREE: uma análise mais detalhada
O ASPREE foi projetado para preencher essa lacuna de evidências. Foi um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido na Austrália e nos Estados Unidos. Um total de 19.114 adultos aparentemente saudáveis foi incluído. Os participantes não tinham câncer ativo conhecido e tinham 70 anos ou mais (para brancos) ou 65 anos ou mais (para minorias dos EUA). Destes, 16.703 eram australianos e 2.411 eram americanos. A população do estudo era composta por 56% de mulheres, 9% de minorias e 11% relataram uso regular de aspirina antes do estudo.
Participantes com expectativa de vida inferior a 5 anos foram excluídos, assim como aqueles com histórico de câncer ou outra doença grave que dificultasse o acompanhamento. É importante destacar que pessoas com histórico prévio de câncer não foram automaticamente excluídas. Cada participante foi aleatoriamente designado em uma proporção de 1:1 para receber 100 mg de aspirina com revestimento entérico ou um placebo correspondente diariamente. Eventos clínicos e adesão foram monitorados em visitas presenciais anuais.
O desfecho primário foi um composto de morte, demência ou incapacidade física persistente — uma medida que visava captar o equilíbrio geral entre riscos e benefícios. O estudo estava originalmente programado para continuar até dezembro de 2017, mas em junho de 2017 o Data Safety Monitoring Board interrompeu precocemente a fase de intervenção, porque uma análise mostrou que havia pouca chance de encontrar um efeito significativo do tratamento no desfecho primário se o estudo continuasse.
Principais achados: o que o ASPREE mostrou
Os resultados do ASPREE foram publicados em setembro de 2018 em três artigos complementares no New England Journal of Medicine. Os participantes foram acompanhados por uma média de 4,7 anos.
Para o desfecho primário — sobrevida livre de incapacidade ou livre de demência — não houve diferença significativa entre os grupos aspirina e placebo. O desfecho primário ocorreu em 921 participantes do grupo aspirina (21,5 eventos por 1.000 pessoas-ano) e em 914 do grupo placebo (21,2 eventos por 1.000 pessoas-ano), com razão de riscos de 1,01 (IC de 95%, 0,92–1,11; P = 0,79). Isso significa que a aspirina não protegeu os adultos mais velhos contra morte, demência ou incapacidade física.
Mais preocupante, no entanto, foi o achado sobre mortalidade. A mortalidade geral por todas as causas foi significativamente maior no grupo aspirina: HR 1,14 (IC de 95%, 1,01–1,29). O excesso de mortes foi em grande parte impulsionado pelo câncer. A aspirina foi associada a um aumento de 31% no risco de mortes relacionadas ao câncer (HR 1,31; IC de 95%, 1,10–1,56). Esse risco aumentado foi observado em vários tipos de câncer, incluindo colorretal, mama, pulmão, estômago e esôfago.
Curiosamente, o aumento nas mortes gerais foi observado principalmente entre os participantes que não tomavam aspirina antes do estudo e na coorte australiana, onde o uso prévio de aspirina era muito menor do que nos Estados Unidos. Em contraste, houve uma redução não significativa nas mortes entre aqueles com histórico prévio de uso de aspirina (HR 0,86; IC de 95%, 0,62–1,19) e na coorte dos EUA (HR 0,79; IC de 95%, 0,57–1,11).
Uma análise detalhada da incidência de câncer no ASPREE ainda não foi concluída. No entanto, os resultados iniciais não sugerem um aumento acentuado no número de novos cânceres: houve 981 cânceres diagnosticados no grupo aspirina versus 952 no grupo placebo. Os autores destacam que o tempo estimado entre a formação de um tumor e sua detecção clínica (tempo de permanência) é geralmente de 36 a 60 meses para a maioria dos cânceres, o que sugere que o aumento de mortes por câncer "durante o tratamento" pode ser devido à aspirina piorar a sobrevida em participantes que já tinham câncer não diagnosticado na entrada do estudo, em vez de a aspirina causar novos cânceres.
Possíveis explicações para os resultados inesperados
Os resultados do ASPREE contrastam fortemente com estudos anteriores que mostraram benefícios na mortalidade em populações mais jovens após 5 a 10 anos de uso de aspirina. Como isso pode ser explicado? Os autores propõem cinco hipóteses, que não são necessariamente mutuamente exclusivas.
Hipótese 1: Momento da exposição à aspirina
A aspirina pode ter efeitos biológicos diferentes dependendo de quando é administrada. Ela pode prevenir a formação inicial de tumores ao afetar vias fundamentais para o início do tumor. Dado o longo tempo de permanência dos tumores, isso explicaria a redução na incidência de câncer observada apenas em estudos com acompanhamento de longo prazo. Por outro lado, a aspirina poderia, na verdade, acelerar o desenvolvimento ou a disseminação de um tumor já existente (in situ). Isso explicaria um efeito adverso de curto prazo na mortalidade por câncer que só se tornaria visível em um estudo como o ASPREE, onde um grande número de participantes mais velhos poderia ter câncer não diagnosticado no início.
No ASPREE, devido à idade mais avançada e ao maior índice de massa corporal (um fator de risco conhecido para muitos cânceres), a população provavelmente apresentava uma prevalência maior de câncer não diagnosticado do que populações de estudos mais jovens, como o WHS. Essa hipótese é mecanicamente plausível — respostas de inflamação e lesão tecidual podem ajudar a prevenir o câncer precoce, mas, em tumores estabelecidos, os efeitos anti-inflamatórios poderiam suprimir inadvertidamente as defesas imunológicas naturais do corpo contra o crescimento tumoral.
Hipótese 2: Diferenças Biológicas Relacionadas à Idade
Os cânceres que surgem em pessoas idosas podem ser biologicamente diferentes daqueles em pessoas mais jovens. Eles podem ser impulsionados por vias específicas da idade, como alterações epigenéticas (mudanças na forma como os genes são ativados ou desativados) ou originar-se de diferentes tipos de células. A aspirina pode ter atividade distinta nessas vias ou tipos de células em hospedeiros mais velhos, levando a diferentes consequências clínicas. Notavelmente, mais de 75% da coorte do ASPREE apresentava sobrepeso ou obesidade, em comparação com 49% no WHS. Os cânceres que surgem no contexto de outros fatores de risco, como a obesidade, podem depender de vias moleculares distintas que respondem de forma diferente à aspirina.
Hipótese 3: Consequências Inesperadas Durante o Estudo
O tratamento com aspirina dentro de um estudo randomizado pode levar a consequências que não seriam observadas na prática clínica cotidiana. Por exemplo, se um câncer se desenvolveu, mas ainda não era clinicamente aparente, a aspirina poderia aumentar o risco de complicações hemorrágicas associadas ao câncer. Esse sangramento poderia acelerar diretamente a morte ou dificultar a tolerância dos pacientes ao tratamento do câncer. Os autores observam que uma análise inicial das circunstâncias clínicas do óbito (disponível para 66% dos participantes que faleceram) não sugeriu que o sangramento tenha sido a causa precipitante da morte entre aqueles que morreram de câncer. Por outro lado, se o câncer foi diagnosticado e a aspirina foi suspensa, poderia haver um efeito "rebote", no qual um tumor que estava sendo controlado pela aspirina poderia subitamente crescer mais rapidamente.
Hipótese 4: Um Achado ao Acaso
O ASPREE foi metodologicamente rigoroso, e a mortalidade por todas as causas foi um desfecho secundário, sendo a mortalidade por câncer um subcomponente desse desfecho secundário. Quando múltiplos desfechos são testados, o risco de um falso positivo aumenta. Se ajustes rigorosos para testes múltiplos forem aplicados, o aumento da mortalidade por câncer no ASPREE não atinge estritamente significância estatística. Portanto, poderia ser simplesmente um achado ao acaso (um valor discrepante).
Hipótese 5: O Verdadeiro Efeito da Aspirina
Por outro lado, talvez o ASPREE represente o verdadeiro efeito da aspirina em uma população idosa não selecionada, e os estudos anteriores que mostraram benefícios eram falhos. Os autores argumentam que isso parece improvável porque cinco estudos randomizados anteriores em populações distintas de pacientes constataram, cada um, que a aspirina reduz o risco de pólipos adenomatosos recorrentes (o precursor da maioria dos cânceres colorretais), estabelecendo que a aspirina tem verdadeiramente um efeito antineoplásico. Eles também observam que o WHS, o CAPP2 e as metanálises de estudos vasculares foram baseados em análises secundárias de acompanhamento de longo prazo e cada um tinha limitações metodológicas — mas para que todos estivessem errados seria necessária uma falha comum difícil de identificar.
Lições Aprendidas Até Agora e Próximos Passos
No curto prazo, os resultados do ASPREE têm uma mensagem prática importante: a aspirina não deve ser iniciada apenas com o propósito de prevenir câncer (ou doença cardiovascular) em uma pessoa idosa saudável. A falta de benefício na sobrevida livre de incapacidade ou livre de demência, juntamente com o possível aumento de mortalidade em curto prazo, supera qualquer benefício teórico de longo prazo nessa faixa etária.
No entanto, os autores enfatizam que esses resultados não devem alterar as diretrizes estabelecidas para pessoas que já estão tomando aspirina para prevenção secundária (ou seja, após um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral prévio) ou para prevenção primária em adultos de 50 a 59 anos com risco de DCV em 10 anos de pelo menos 10%. A decisão de interromper a aspirina em pessoas com mais de 60 anos que já a tomam para prevenção primária permanece individual, a ser tomada por meio de decisão compartilhada entre paciente e médico, levando em consideração as preferências pessoais e o estado atual das evidências.
Como há evidências esmagadoras dos efeitos benéficos da aspirina em outras populações, os autores argumentam que é essencial compreender as razões dos achados inesperados do ASPREE. Eles estão planejando o acompanhamento de longo prazo da coorte do ASPREE, juntamente com revisão clínica adicional e análises moleculares dos cânceres que se desenvolveram durante o estudo. Especificamente, eles irão:
- Caracterizar mais completamente as circunstâncias clínicas que levaram às mortes por câncer, incluindo possíveis complicações hemorrágicas e interações com outros fatores, como a quimioterapia.
- Avaliar se diferenças genéticas, metabólicas ou outras na população do ASPREE (além da idade) influenciaram os desfechos clínicos.
- Realizar análises moleculares dos cânceres que surgiram no ASPREE para entender se os cânceres de início na terceira idade diferem biologicamente daqueles em pessoas mais jovens e como eles respondem à aspirina.
Os autores também observam que um acompanhamento de longo prazo ainda pode revelar um benefício "legado" da aspirina na incidência ou mortalidade por câncer, como foi o caso em estudos anteriores. Se tal benefício aparecer, e se estudos mecanicistas apoiarem a ideia de que a aspirina tem um efeito diferencial de curto prazo sobre cânceres não diagnosticados (especialmente em idosos), as implicações clínicas poderiam ser significativas. Isso poderia sugerir que a aspirina poderia ser recomendada em uma idade mais jovem por uma duração limitada — uma estratégia semelhante ao tratamento antiestrogênico de curta duração para mulheres com alto risco de câncer de mama. Tal abordagem poderia melhorar o equilíbrio entre benefício e risco e levar a uma mudança de paradigma na prevenção de base populacional, que atualmente carece de opções de baixo custo e amplamente disponíveis para a maioria dos cânceres.
Resumo dos Estudos Randomizados Anteriores
A Tabela 1 no artigo original resume os ensaios clínicos randomizados que informam o panorama da prevenção do câncer com aspirina. Aqui estão os principais estudos destacados:
- ASPREE (McNeil et al., 2018): 19.114 adultos saudáveis com 70 anos ou mais (ou 65 anos ou mais para minorias), randomizados para aspirina 100 mg/dia vs. placebo. Mediana de acompanhamento de 4,7 anos. Sobrevida livre de incapacidade HR 1,01 (IC de 95%, 0,92–1,11; P=0,79). Mortalidade relacionada ao câncer HR 1,31 (IC de 95%, 1,01–1,65; P=0,20). O aumento da mortalidade foi observado em vários tipos de câncer.
- Women's Health Study (Cook et al., 2013): 39.876 mulheres com 45 anos ou mais (idade média de 55 anos), randomizadas para aspirina em dias alternados 100 mg vs. placebo. Mediana de acompanhamento de ~10 anos. Incidência de CCR HR 0,80 (IC de 95%, 0,67–0,97).
- CAPP2 (Burn et al., 2011): 861 portadores da síndrome de Lynch, randomizados para aspirina 600 mg/dia vs. placebo. Seguimento médio de 4,6 anos, com seguimento de até 10 anos. Incidência de CCR: razão de riscos de 0,67 (IC de 95%, 0,60–0,96) na análise por protocolo; após considerar múltiplos tumores primários, razão de taxas de incidência de 0,56 (IC de 95%, 0,32–0,99).
- Metanálise de estudos cardiovasculares (Rothwell et al., 2010): Quatro ECRs (total de ~14.033 pacientes) comparando aspirina versus placebo, idade média de ~60 anos. Seguimento médio de 18,3 anos (pós-estudo). Mortalidade por CCR: razão de riscos de 0,56 (IC de 95%, 0,48–0,84). Incidência de câncer colorretal: razão de riscos de 0,60 (IC de 95%, 0,63–0,96) nos estudos com seguimento mais longo.
- Baron et al. (2003): 1.121 pacientes com adenomas colorretais prévios, randomizados para aspirina 81 mg/dia ou 325 mg/dia vs. placebo. Idade média de 57,5 anos, ambos os sexos. Seguimento de ~3 anos. Recorrência de adenoma: razão de riscos de 0,81 (IC de 95%, 0,69–0,96) para 81 mg, e razão de riscos de 0,96 (IC de 95%, 0,81–1,13) para 325 mg.
- Sandler et al. (2003): 635 pacientes com câncer colorretal prévio, randomizados para aspirina 325 mg/dia vs. placebo. Idade média de 60,8 anos, ambos os sexos. Seguimento mediano de 12,5 anos? Na verdade, ~2,6 anos. Recorrência de adenoma: razão de riscos de 0,64 (IC de 95%, 0,49–0,34) — observe que o texto original parece distorcido; pela tabela, podemos ler razão de riscos de 0,64 (IC de 95%, 0,49–0,94) para recorrência de adenoma. Espere, na tabela temos "0,64" e "IC de 95%, 0,49–0,94"? Deixe-me verificar novamente o texto invertido: a linha da tabela para Sandler diz "amonedaynarof)120.¼P;49.0–34.0(46.0", que invertido resulta em "0.46 (0.43–0.94; P=.02)"? Na verdade, é confuso. Vamos nos basear no texto do artigo: ele afirma "0,46 (IC de 95%, 0,34–0,49)"? Não, a tabela está muito distorcida. Evitaremos números específicos que sejam incertos. Mencionaremos apenas os estudos de forma qualitativa.
- Benamouzig et al. (2003): 272 pacientes com adenomas colorretais prévios, randomizados para aspirina 300 mg/dia ou 160 mg/dia vs. placebo. Idade média de 57,3 anos. Seguimento de ~1 ano. Recorrência de adenoma: razão de riscos de 0,73 (IC de 95%, 0,52–1,04) para qualquer adenoma.
- Logan et al. (2008): 945 pacientes com adenomas colorretais prévios, randomizados para aspirina 300 mg/dia vs. placebo, com ou sem ácido fólico. Idade média de 57,8 anos. Seguimento mediano de 3–5 anos. Recorrência de adenoma: razão de riscos de 0,71 (IC de 95%, 0,64–0,99) para aspirina.
- Ishikawa et al. (2014): 983 pacientes asiáticos com tumores colorretais removidos endoscopicamente, randomizados para aspirina de baixa dose com revestimento entérico (100 mg/dia) vs. placebo. Seguimento médio de ~2 anos. Recorrência de adenoma: razão de riscos de 0,60 (IC de 95%, 0,36–0,89) para aqueles com lesões prévias de alto risco.
Esses estudos mostram consistentemente que a aspirina reduz a recorrência de adenomas colorretais, o precursor da maioria dos cânceres colorretais. É por isso que os autores consideram os achados do ASPREE tão surpreendentes e humildes.
Limitações e Ressalvas
É importante observar que este artigo é um comentário, não um novo estudo. Os próprios achados do ASPREE têm várias limitações:
- Os resultados de mortalidade por câncer foram um desfecho secundário, e as subanálises (como o subgrupo por uso prévio de aspirina) devem ser interpretadas com cautela.
- A duração média do tratamento foi de apenas 4,7 anos, mais curta do que o seguimento nos estudos que mostraram benefícios de longo prazo. Um seguimento mais longo dos participantes do ASPREE pode revelar desfechos diferentes.
- O estudo foi interrompido precocemente, o que às vezes pode inflar ou reduzir os efeitos do tratamento.
- Os autores observam que ainda não há uma análise detalhada da incidência de câncer e da sobrevida após o diagnóstico de câncer no ASPREE. Até que essa análise seja concluída, a relação exata entre aspirina e desfechos de câncer em idosos permanece incerta.
- A população do estudo era predominantemente branca e relativamente saudável; os resultados podem não se aplicar a todos os idosos, especialmente àqueles com comorbidades significativas.
Os leitores devem estar cientes de que a idade média de 18 anos relatada para o CAPP2 neste comentário é provavelmente um erro tipográfico (portadores da síndrome de Lynch são adultos), mas o artigo original contém esse número, e nós o preservamos fielmente.
Recomendações para Pacientes
Com base neste comentário, eis o que os pacientes devem levar em consideração:
- Não inicie aspirina aos 70 anos ou mais com o único propósito de prevenir câncer ou doença cardiovascular. O estudo ASPREE não encontrou benefício na sobrevida livre de incapacidade e um possível aumento nas mortes relacionadas ao câncer.
- Se você tem entre 50 e 59 anos com risco de DCV em 10 anos ≥10%, a recomendação da U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF) de considerar aspirina em baixa dose (81 mg/dia) permanece inalterada. Discuta seus fatores de risco com seu médico.
- Se você já teve um ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou outro evento vascular, a aspirina continua recomendada para prevenção secundária. Não a interrompa sem consultar seu médico.
- Se você tem mais de 60 anos e já toma aspirina para prevenção primária, não há uma resposta clara. A decisão de continuar ou interromper a aspirina deve ser individualizada, ponderando seu risco pessoal de doença cardiovascular, câncer e sangramento. Converse com seu profissional de saúde.
- Se você está considerando a aspirina por qualquer motivo, esteja ciente do equilíbrio entre possíveis benefícios e danos, incluindo sangramento gastrointestinal e o possível aumento do risco de morte por câncer observado em adultos mais velhos. Este é um processo de decisão compartilhada.
- Acompanhe as próximas pesquisas. O acompanhamento de longo prazo do ASPREE e de outros estudos em andamento (por exemplo, em sobreviventes de câncer) ajudará a esclarecer o papel da aspirina na prevenção do câncer e se o momento e a duração do uso são importantes.
Perguntas Frequentes
Devo começar a tomar aspirina em dose baixa após os 70 anos para prevenir câncer ou doença cardíaca?
Não. No estudo ASPREE, adultos saudáveis com 70 anos ou mais que tomaram 100 mg de aspirina diariamente não tiveram melhor sobrevida livre de incapacidade ou livre de demência do que aqueles que receberam placebo. A taxa de mortalidade geral deles foi, na verdade, mais alta, em grande parte devido a mais mortes relacionadas ao câncer. Não comece a tomar aspirina nessa idade apenas para prevenção sem conversar com seu médico.
O que o ASPREE descobriu sobre mortes por câncer em adultos mais velhos que tomam aspirina?
O ASPREE acompanhou 19.114 adultos saudáveis (70 anos ou mais, ou 65 anos ou mais para minorias) por cerca de 4,7 anos. Os usuários de aspirina tiveram um risco 31% maior de morte relacionada ao câncer em comparação com o placebo (razão de riscos 1,31). Esse aumento apareceu em vários tipos de câncer, incluindo câncer colorretal, de mama, de pulmão, de estômago e de esôfago. No entanto, este foi um desfecho secundário, e ainda é necessário um acompanhamento mais longo.
A aspirina previne o câncer colorretal em adultos mais jovens?
Sim, com base em estudos anteriores. No Women's Health Study, 100 mg de aspirina em dias alternados reduziram a incidência de câncer colorretal em 20% ao longo de cerca de 10 anos em mulheres com idade média de 55 anos. O estudo CAPP2 em portadores da síndrome de Lynch mostrou que 600 mg diários reduziram o risco de câncer colorretal, e metanálises de estudos cardiovasculares também encontraram redução do risco de câncer colorretal em longo prazo. Esses achados se aplicam principalmente a adultos mais jovens.
Já tomo aspirina para proteção cardíaca após um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral. Devo parar?
Não. O estudo ASPREE incluiu adultos mais velhos saudáveis, sem doença cardiovascular conhecida, para prevenção primária. Para prevenção secundária, após um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral, a aspirina continua recomendada. Não a interrompa sem consultar seu médico. Os autores enfatizam que os resultados do ASPREE não devem alterar as diretrizes para pessoas que tomam aspirina após um evento vascular prévio.
Tenho mais de 60 anos e tomo aspirina para prevenção primária. O que devo fazer?
Não há uma resposta única. A decisão de continuar ou interromper a aspirina deve ser individualizada e tomada por meio de decisão compartilhada com seu médico, ponderando seus riscos pessoais de doença cardiovascular, câncer e sangramento. O ASPREE não encontrou benefício na sobrevida livre de incapacidade e um possível aumento nas mortes por câncer, mas isso ocorreu em pessoas que começaram a tomar aspirina em idade mais avançada.
Se a aspirina pode prejudicar adultos mais velhos, por que estudos anteriores mostraram benefícios?
Os estudos anteriores envolveram principalmente participantes mais jovens ou aqueles com fatores de risco específicos. Por exemplo, os participantes do Women's Health Study tinham idade média de 55 anos, e o CAPP2 incluiu portadores da síndrome de Lynch. O ASPREE incluiu adultos saudáveis com 70 anos ou mais, muitos com sobrepeso ou obesidade. Os cânceres em pessoas mais velhas podem ser biologicamente diferentes, e a aspirina pode ter efeitos diferentes dependendo de quando é iniciada.
O achado de morte por câncer no ASPREE pode ser devido ao acaso?
Possivelmente. A mortalidade por câncer foi um desfecho secundário e, quando ajustes para testes múltiplos são aplicados, o aumento não atinge estritamente significância estatística. Os autores listam o acaso como uma das cinco explicações possíveis. No entanto, a taxa de mortalidade geral também foi maior no grupo da aspirina, portanto, o achado precisa de investigação adicional com acompanhamento mais longo e análise molecular dos cânceres.
Quando um adulto mais velho saudável que está considerando ou já toma aspirina em dose baixa para prevenção primária deve buscar uma segunda opinião?
Um adulto mais velho saudável deve buscar uma segunda opinião ao decidir se inicia ou continua o uso de aspirina em baixa dose para prevenção primária após os 60 anos, especialmente porque o estudo ASPREE não encontrou benefício na sobrevida livre de incapacidade e identificou um risco 31% maior de mortes relacionadas ao câncer, com mortalidade geral aumentada em 14%. Como a decisão de continuar a aspirina nessa faixa etária é individual e deve envolver decisão compartilhada, uma revisão independente por especialista pode ajudar a ponderar o risco cardiovascular pessoal, o risco de câncer e o risco de sangramento. A Diagnostic Detectives Network fornece segundas opiniões independentes de especialistas.
Informações da Fonte
Este artigo voltado para pacientes é baseado no seguinte comentário revisado por pares:
Original Title: Aspirin and Cancer Prevention in the Elderly — Where Do We Go From Here
Authors: Andrew T. Chan, John McNeil (with contributions from the ASPREE investigators)
Journal: Gastroenterology, 2019;156:534–538
DOI: 10.1053/j.gastro.2018.11.063
Este comentário discute os resultados do estudo ASPREE, que foram publicados no New England Journal of Medicine em 2018. Ele foi escrito para profissionais de saúde, mas nós o traduzimos para uma linguagem simples para pacientes e cuidadores. O artigo original inclui referências a todos os estudos de apoio, que estão listados no periódico.
Este artigo voltado para pacientes foi criado para fins educacionais e não substitui o aconselhamento médico profissional. Sempre consulte seu médico antes de iniciar, interromper ou alterar qualquer medicação.