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Guia do Paciente para o Tratamento do Câncer de Mama Metastático Hormônio-Positivo

How I treat endocrine-dependent metastatic breast cancer. ESMO Open, Volume 8, Issue 2, 202312 min

Sumário

Pontos-Chave

  • Inibidores de CDK 4/6 combinados com terapia endócrina são o tratamento padrão de primeira linha para câncer de mama luminal avançado.
  • Três inibidores de CDK 4/6 (palbociclib, abemaciclib, ribociclib) apresentam benefícios semelhantes na sobrevida livre de progressão em ensaios clínicos.
  • Os ensaios com ribociclib e abemaciclib mostraram benefício na sobrevida global, mas os ensaios com palbociclib não mostraram.
  • Pacientes pré-menopáusicas e idosas também se beneficiam dos inibidores de CDK 4/6, embora os dados para idosos frágeis sejam limitados.
  • Conjugados anticorpo-fármaco são uma nova classe promissora de tratamento após a resistência à terapia endócrina.

Introdução: Compreendendo o Seu Tipo de Câncer

O câncer de mama receptor de estrogênio positivo e HER2 negativo (frequentemente chamado de tipo luminal) é a forma mais frequente da doença, representando cerca de 70% de todos os casos de câncer de mama. Apesar de receber o melhor tratamento possível após o diagnóstico inicial, entre 5% e 25% dos pacientes terão uma recorrência. Este câncer às vezes retorna muitos anos após o diagnóstico original.

Uma porcentagem menor de pacientes é diagnosticada com câncer de mama metastático de novo (MBC), o que significa que o câncer já se espalhou para outras partes do corpo no momento do primeiro diagnóstico. Em grandes ensaios clínicos recentes, esses pacientes representaram cerca de 30% dos participantes. É crucial entender que o câncer de mama metastático é atualmente considerado incurável.

Os objetivos primários do tratamento são ajudar os pacientes a viver mais tempo, manter ou melhorar sua qualidade de vida, gerenciar os sintomas e respeitar seus desejos e metas pessoais para o cuidado.

O Padrão Atual de Cuidado: Inibidores de CDK 4/6

A primeira escolha estabelecida para o manejo do câncer de mama luminal avançado é uma combinação de terapia endócrina (TE) e inibidores da quinase dependente de ciclina (CDK) 4/6. Isso é verdadeiro independentemente de quão avançada esteja a doença. A abordagem padrão envolve o uso de múltiplas linhas de tratamentos endócrinos e direcionados até que o câncer desenvolva resistência, momento em que a quimioterapia paliativa é considerada.

Compreender por que o câncer se torna resistente à terapia hormonal e desenvolver novas opções de tratamento estão entre os maiores desafios da pesquisa oncológica atual. Outra área de intenso foco é melhorar os tratamentos após a terapia endócrina deixar de funcionar. O desenvolvimento de conjugados anticorpo-fármaco (ADCs) é particularmente promissor, e espera-se que alguns desses medicamentos logo se tornem parte do arsenal padrão contra esta doença.

Considerações Clínicas: Todos os Inibidores de CDK 4/6 Comportam-se da Mesma Forma?

Com base nos resultados de vários grandes ensaios clínicos de Fase III, três inibidores de CDK 4/6 — palbociclib (Ibrance), abemaciclib (Verzenio) e ribociclib (Kisqali) — são usados em combinação com o tratamento endócrino. Essa combinação não é apenas um tratamento padrão, mas é considerada uma das maiores inovações na oncologia do câncer de mama nos últimos vinte anos.

Os principais resultados desses ensaios fundamentais estão resumidos na tabela abaixo. As diretrizes médicas atuais recomendam que quase todos os pacientes com câncer de mama luminal avançado sejam tratados com um inibidor de CDK 4/6. Essa recomendação baseia-se em um benefício clinicamente significativo de sobrevida livre de progressão (SLP) observado em todos os ensaios.

Principais Resultados dos Ensaios:

  • PALOMA-2 (Palbociclib + Letrozol): A SLP mediana foi de 24,8 meses vs. 14,5 meses com placebo (Razão de Risco [RR] 0,58).
  • MONALEESA-2 (Ribociclib + Letrozol): A SLP mediana foi de 25,3 meses vs. 16,0 meses com placebo (RR 0,56). O benefício na sobrevida global (SG) também foi significativo (RR 0,76).
  • MONARCH-3 (Abemaciclib + AINE): A SLP mediana foi de 28 meses vs. 14,7 meses com placebo (RR 0,54).
  • Benefícios significativos semelhantes foram observados no segundo linha de tratamento e em mulheres pré-menopáusicas quando combinados com outros agentes endócrinos, como o fulvestrante.

Embora os resultados sejam geralmente semelhantes, existem algumas diferenças. Um benefício significativo de sobrevida global (SG) foi observado nos ensaios que utilizaram ribociclib (MONALEESA-2, -3, -7) e abemaciclib (MONARCH-2), mas não nos dois grandes ensaios que utilizaram palbociclib (PALOMA-2 e -3). A razão para essa diferença não está totalmente clara, mas pode estar relacionada à seleção de pacientes ou ao comportamento da doença após a progressão com esses medicamentos.

A melhor sequência de diferentes agentes endócrinos principais depende dos medicamentos que o paciente recebeu anteriormente, do tempo de resposta a eles, da extensão da doença, das preferências do paciente e da disponibilidade dos medicamentos. A SLP mais longa é geralmente alcançada quando essas combinações são usadas como tratamento de primeira linha.

Considerações de Tratamento para Populações Especiais

Historicamente, mulheres pré-menopáusicas foram sub-representadas nos ensaios de câncer. O ensaio MONALEESA-7 focou especificamente nesse grupo (672 pacientes) e mostrou que o benefício de adicionar um inibidor de CDK 4/6 à terapia endócrina (com supressão ovariana) foi comparável ao observado em mulheres pós-menopáusicas. Um estudo separado até encontrou que pacientes pré-menopáusicas tiveram uma SLP mais longa com palbociclib + TE (20 meses) do que com quimioterapia (14,4 meses), endossando o uso dessas combinações em pacientes mais jovens.

Pacientes idosos também são frequentemente sub-representados. Uma análise conjunta dos ensaios de palbociclib que incluiu 304 pacientes com 65 anos ou mais encontrou que a eficácia do tratamento foi mantida, com uma SLP mediana de 27,5 meses para pacientes entre 65 e 74 anos. A qualidade de vida também foi mantida. No entanto, os dados para pacientes com mais de 75 anos ou aqueles com fragilidade significativa ainda são limitados, e os médicos devem prestar atenção especial às potenciais interações medicamentosas nessa população.

Pacientes do sexo masculino foram elegíveis para apenas um grande ensaio (MONALEESA-3) e, embora o recrutamento tenha sido rápido, nenhum foi finalmente inscrito. Um estudo separado do mundo real incluiu um pequeno número de homens (1,2%, 39 pacientes), mas esse número é baixo demais para tirar conclusões específicas. Apesar da falta de dados, as diretrizes atuais recomendam que os homens recebam as mesmas opções de tratamento que as mulheres.

A Biologia do Seu Tumor Importa? O Papel dos Biomarcadores

As alterações moleculares mais comuns neste tipo de câncer de mama são mutações nos genes ESR1 e PIK3CA. Uma mutação no ESR1 é frequentemente encontrada após tratamento prévio com um inibidor da aromatase (em 30%-40% dos pacientes) e está tipicamente associada a um prognóstico pior. Uma alteração no PIK3CA ocorre em cerca de 40% dos pacientes e parece estar ligada a uma sobrevida global pior e à resistência à quimioterapia.

É importante ressaltar que o benefício de adicionar um inibidor da CDK 4/6 à terapia endócrina parece manter-se independentemente da presença dessas mutações específicas. Os pesquisadores estão fazendo esforços sem precedentes para encontrar biomarcadores que prevejam quem responderá melhor a esses medicamentos por meio de testes genéticos avançados.

Por exemplo, uma grande análise agrupada sugeriu que pacientes com alterações em certos genes (FRS2, PRKCA, MDM2, ERBB2, AKT1_E17K, BRCA1/2) podem ter um maior benefício do ribociclib, enquanto alterações em outros genes (CHD4, BCL11B, ATM, CDKN2A/2B/2C) podem estar ligadas à resistência. No entanto, esses achados ainda são considerados geradores de hipóteses e não estão prontos para uso na prática clínica diária.

O monitoramento do DNA do câncer no sangue (ctDNA) durante o tratamento pode ser uma maneira melhor de prever os resultados a longo prazo do que um único teste no início. O ensaio PADA-1 mostrou que pacientes cujo ctDNA apresentou aumento nas mutações do ESR1 podem se beneficiar da troca precoce do tratamento, antes que o câncer mostre sinais visíveis de progressão.

Em conclusão, embora tenha sido feito um enorme esforço para encontrar biomarcadores, nenhum é atualmente utilizado para decidir sobre o tratamento. No entanto, a presença de certas mutações e suas mudanças ao longo do tempo têm claro valor prognóstico, o que significa que podem ajudar a indicar o provável curso da doença.

Direções Futuras e Novos Tratamentos no Horizonte

Quando o câncer progride sob inibidores da CDK 4/6, o perfil molecular frequentemente mostra novas alterações genéticas, como alterações na via FGFR ou, em cerca de 5% dos casos, mutações no gene RB1. Compreender esses mecanismos de resistência é fundamental para o desenvolvimento da próxima linha de terapias.

Uma das áreas de desenvolvimento mais promissoras é a dos conjugados anticorpo-fármaco (ADCs). Estes são medicamentos sofisticados projetados para entregar um potente agente de quimioterapia diretamente às células cancerosas, ligando-o a um anticorpo que busca essas células. Essa abordagem direcionada visa maximizar o dano ao câncer enquanto minimiza os efeitos colaterais para o paciente. A revisão observa que alguns desses ADCs provavelmente se tornarão em breve uma parte padrão do arsenal de tratamento.

Para o pequeno subgrupo de pacientes com câncer de mama metastático positivo para receptor de estrógeno que também possui uma mutação germinativa BRCA herdada, os inibidores da PARP, como olaparib ou talazoparib, são uma opção de tratamento importante. A melhor sequência de uso dos inibidores da PARP versus inibidores da CDK 4/6 ainda é desconhecida, mas, dado o benefício na sobrevida global observado com os inibidores da CDK 4/6, eles são geralmente recomendados em primeiro lugar.

Conclusão e Principais Pontos

O cenário de tratamento do câncer de mama metastático positivo para receptor hormonal e HER2-negativo foi revolucionado pela introdução dos inibidores da CDK 4/6 combinados com terapia endócrina. Esta abordagem é o tratamento padrão de primeira linha para a maioria dos pacientes, oferecendo atrasos significativos na progressão da doença e, para alguns medicamentos, uma melhoria na sobrevida global.

As decisões de tratamento são personalizadas com base no status menopausal do paciente, tratamentos anteriores e saúde geral. Embora haja pesquisas extensas em andamento para encontrar biomarcadores que possam prever a resposta, nenhum é ainda utilizado rotineiramente para selecionar a terapia. O futuro é promissor, com várias novas classes de medicamentos, particularmente os conjugados anticorpo-fármaco, mostrando grande potencial para o tratamento da doença após ela se tornar resistente às terapias padrão atuais.

Perguntas Frequentes

Qual é o tratamento de primeira linha para o câncer de mama metastático positivo para hormônio?

O tratamento padrão de primeira linha é uma combinação de terapia endócrina e um inibidor da CDK 4/6. Esta abordagem é recomendada para quase todos os pacientes com câncer de mama luminal avançado, independentemente da extensão da doença. Ela atrasa significativamente a progressão do câncer e, para alguns medicamentos, melhora a sobrevida global.

Por que o câncer de mama positivo para hormônio volta após o tratamento?

O câncer pode desenvolver resistência à terapia hormonal ao longo do tempo. Compreender os mecanismos de resistência é um foco principal da pesquisa. Alterações genéticas, como mutações no ESR1 após o tratamento com inibidor da aromatase, são comuns e associadas a pior prognóstico. Novos tratamentos, como conjugados anticorpo-fármaco, estão sendo desenvolvidos para superar a resistência.

Todos os inibidores da CDK 4/6 são iguais?

Os três inibidores aprovados da CDK 4/6 (palbociclib, abemaciclib, ribociclib) mostram benefícios semelhantes na sobrevida livre de progressão. No entanto, benefício na sobrevida global foi observado em ensaios com ribociclib e abemaciclib, mas não com palbociclib. A razão para essa diferença é desconhecida e pode estar relacionada à seleção de pacientes ou ao tratamento pós-progressão.

Os biomarcadores orientam o tratamento para este câncer?

Atualmente, nenhum biomarcador é utilizado para decidir sobre o tratamento com inibidores de CDK 4/6. O benefício de adicionar esses medicamentos parece ser independente de mutações comuns como ESR1 ou PIK3CA. No entanto, o monitoramento do ctDNA para detectar o aumento das mutações ESR1 durante o tratamento pode ajudar a orientar uma troca precoce da terapia antes que haja progressão visível.

Por quanto tempo o tratamento com um inibidor de CDK 4/6 mais terapia endócrina geralmente atrasa a progressão do câncer?

Em ensaios clínicos, a combinação de um inibidor de CDK 4/6 com terapia endócrina atrasou significativamente a progressão do câncer em comparação com a terapia endócrina isolada. Por exemplo, a sobrevida livre de progressão mediana foi de aproximadamente 25 meses com ribociclib mais letrozol versus 16 meses com placebo, e de aproximadamente 28 meses com abemaciclib mais um inibidor da aromatase versus 14,7 meses com placebo. Esses benefícios foram observados no tratamento de primeira linha.

Mulheres pré-menopáusicas com câncer de mama metastático positivo para hormônios podem usar inibidores de CDK 4/6?

Sim, mulheres pré-menopáusicas podem se beneficiar dos inibidores de CDK 4/6. O ensaio MONALEESA-7 estudou especificamente esse grupo e constatou que a adição de um inibidor de CDK 4/6 à terapia endócrina com supressão ovariana proporcionou um benefício comparável ao observado em mulheres pós-menopáusicas. Outro estudo mostrou maior sobrevida livre de progressão com palbociclib mais terapia endócrina (20 meses) do que com quimioterapia (14,4 meses) em pacientes pré-menopáusicas.

Os inibidores de CDK 4/6 são eficazes em pacientes idosos?

Pacientes idosos, particularmente aqueles com idade entre 65 e 74 anos, podem se beneficiar dos inibidores de CDK 4/6. Uma análise conjunta dos ensaios clínicos com palbociclib que incluiu 304 pacientes com 65 anos ou mais constatou que a eficácia foi mantida, com uma sobrevida livre de progressão mediana de 27,5 meses para aqueles com idade entre 65 e 74 anos, e a qualidade de vida também foi preservada. No entanto, os dados para pacientes com mais de 75 anos ou aqueles com fragilidade significativa são limitados, e os médicos devem estar atentos às potenciais interações medicamentosas.

Devo buscar uma segunda opinião antes de iniciar o tratamento com inibidor de CDK 4/6 para câncer de mama metastático positivo para hormônios?

Uma segunda opinião pode ser valiosa antes de iniciar o tratamento de primeira linha com um inibidor de CDK 4/6 mais terapia endócrina, já que este é o padrão de cuidado para quase todos os pacientes com câncer luminal avançado. A escolha entre palbociclib, abemaciclib e ribociclib pode afetar a sobrevida global, e seu médico pode ajudar a adaptar o tratamento ao seu estado menopausal, tratamentos anteriores e saúde. Uma segunda opinião pode confirmar seu diagnóstico e plano de tratamento, e esclarecer se biomarcadores ou opções de ensaios clínicos são aplicáveis. A Diagnostic Detectives Network fornece segundas opiniões independentes de especialistas.

Informações da fonte

Original Article Title: How I treat endocrine-dependent metastatic breast cancer
Authors: A. Gombos, A. Goncalves, G. Curigliano, R. Bartsch, J. A. Kyte, M. Ignatiadis, A. Awada
Publication: ESMO Open, Volume 8, Issue 2, 2023
This patient-friendly article is based on peer-reviewed research and aims to comprehensively translate the original scientific content for an educated patient audience, preserving all key data, findings, and clinical context.